
Um pesquisador brasileiro nas Jornadas Andinas de Literatura Latino-americana
Meu nome é Frank Riijkaard da Silva Canuto. Sou estudante do 6.º período de Licenciatura em Letras-Espanhol no Instituto Federal de Brasília (IFB), Campus Ceilândia. Sou pesquisador na área de língua espanhola, literaturas, teoria literária, oralidade testemunhal, memória e identidade.
Em agosto de 2026, terei a honra de apresentar minha pesquisa no congresso XVII Jornadas Andinas de Literatura Latinoamericana - JALLA-AQP, que acontecerá na Facultad de Filosofía y Humanidades da Universidad Nacional de San Agustín de Arequipa, no Peru, entre os dias 3 a 7 de agosto.
O evento é um dos mais importantes fóruns acadêmicos do continente dedicados ao pensamento literário latino-americano, reunindo pesquisadores de toda a América Latina, Europa e Estados Unidos.
Minha pesquisa, intitulada "Um Passeio pelas Encruzilhadas da Ficção: Oralidade, Memória e Imaginação em Biografía de un Cimarrón", é vinculada ao Programa de Iniciação Científica (PIBIC) e foi selecionada para apresentação nesse congresso após rigoroso processo de avaliação. O estudo analisa a obra do escritor e etnólogo cubano Miguel Barnet, publicada em 1966, que apresenta ao mundo a história de vida de Esteban Montejo, homem negro, ex-escravizado, que chegou a viver mais de um século e combateu na Guerra de Independência de Cuba.
Montejo é uma das figuras da memória afro-caribenha: fugiu do cativeiro ainda jovem e viveu durante anos em total isolamento nas montanhas, tornando-se o que em Cuba se chama de cimarrón, o escravizado que recusou a servidão e escolheu a liberdade, mesmo que solitária e incerta.
A relevância desse trabalho vai além do campo acadêmico. Quando pesquisamos as formas pelas quais sujeitos historicamente silenciados constroem e transmitem suas memórias, estamos interrogando os próprios mecanismos de apagamento e de reconhecimento de direitos. A história de Esteban Montejo é, antes de tudo, a história de alguém que o sistema tentou calar e que, mesmo assim, falou — e que encontrou, décadas depois, em uma obra literária, a permanência que a história oficial lhe negou. Nesse sentido, a pesquisa interpela qualquer pessoa comprometida com a escuta ativa das vozes marginalizadas, com a visibilidade de identidades historicamente violentadas e com a memória como instrumento de justiça.
Para mim, apresentar este trabalho em Arequipa representa o reconhecimento de um percurso construído com muito esforço. Sou estudante de universidade pública; vim do Rio Grande do Norte para Brasília estudar e continuei vivendo em Brasília. Sei que o acesso a espaços como este congresso não é uma realidade garantida para pesquisadores em minha situação. Os custos de deslocamento, hospedagem e inscrição representam um obstáculo real, que não consigo suprir com os recursos de que disponho.
Cada contribuição, de qualquer valor, me aproxima da oportunidade de levar uma pesquisa brasileira sobre identidade, memória e resistência negra até um dos principais congressos literários da América Latina. Aproxima, também, o nome do IFB Ceilândia a esse espaço de excelência acadêmica continental.
Conto com a generosidade e a solidariedade de quem acredita que pesquisa de qualidade também nasce nas periferias e merece chegar ao mundo.
Muito obrigado.