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Rinha: patrocine um artista em seu projeto
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Rinha: patrocine um artista em seu projeto

ID: 474308
No ano de 2007 desenvolvo um trabalho que deseja de maneira arbitraria e grotesca, um estudo na área da performance, do vídeo e da fotografia sobre a relação entre a vida enquanto morador de uma periferia de Belém do Pará, em meio ao caos u ver tudo
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Vaquinha criada em: 15/02/2019

No ano de 2007 desenvolvo um trabalho que deseja de maneira arbitraria e grotesca, um estudo na área da performance, do vídeo e da fotografia sobre a relação entre a vida enquanto morador de uma periferia de Belém do Pará, em meio ao caos urbano da violência, dramas sociais, e todos os clichês existências e legítimos deste ambiente, com a vida “barata” de uma galinha. A galinha que era diariamente morta dentro de um cone na feira livre do outro lado da encruzilhada próximo onde eu morava no bairro Jurunas, e que numa bela e derradeira manhã de segunda, determinada pessoa é assassinada justamente na frente da banca que vendia tais animais.

Neste ano nasceu Gallus Sapiens, o herói fracassado sem nenhum caráter, e a idéia da Galiformidade Sapiente. A obscenidade do gesto surge, não pelo ato individualista do artista em seu trabalho, mas através do contexto em que ela reside. “A estratégia adotada é anárquica para levar a cabo a verdadeira intencionalidade, cuja finalidade explícita é tão- somente produzir um lixo próprio, arbitrado pela vontade, em meio ao lixo geral editado e proliferado nas práticas conhecidas e usuais de vida bandalha, especialmente no Brasil. De maneira geral, a estratégia funciona de modo a produzir o riso mais escrachado e a imaginação mais delirante ou sem controle. Mas o ponto de chegada é sempre o desengano e, por isso, o afeto que mais ronda a cascata de gargalhadas é o lutuoso da tristeza”. Coloco-me então como homem-chulo que se envergonha de sua condição obscena e parasitária, a fuga vertiginosa é a única saída. Eis o significado do processo da galiformidade. O Corpo animal entra em cena como dobra à anatomia humana pela abertura literal produzida pelo abate. O degolar das cabeças e o momento-cone. É por isso do fracasso instaurado através de ficções e realidades ordinárias, num movimento que implica a aquisição de formas flexíveis do corpo na linguagem. Em L’animalité, Dominique Lestel explica que a animalidade é um espaço de sentido entre o homem e o animal, antes mesmo que ele se constitua como um espaço físico ou geográfico. Por este viés, da impossibilidade do vôo que instala-se como frustração de um animal com asas que não pode voar, ou que voa, mas a curtos e dolorosos espaços de câimbra, desejo instaurar este trabalho como exercício e meditação do fracasso. A abnegação da própria anatomia, onde a leveza de uma pena não é suficientemente capaz de suportar o peso doméstico de um corpo alimentado. O que nós restam, caros leitores, são os esporões, e através deles seguiremos na RINHA de maneira galinacífera em busca desta aparência entrelaçada de Gallus Sapiens e sua Galiformidade Sapiente.

RIÑA, é a continuação deste processo iniciado por Gallus Sapiens, surgido da inquietação diária e que se tornou latente quando eu tive a oportunidade de expor no México (Museo Ex Teresa de Arte Actual), e a partir disso passei a frequentar algumas “Peleas de Gallo” no interior como Cuatitlán Izcalli, onde inseri meu estudo e observação do comportamento das pessoas que faziam parte desta prática, e dos animais em si, desenvolvendo alguns rascunhos de desenhos, pinturas, fotografias, videos e relatos. Ao retornar para o Brasil a busca foi por locais que realizavam esta prática que é clandestina e não permitida pelas leis brasileiras, tive a oportunidade de frequentar apenas um torneio do qual não foi autorizado a entrada de câmeras e nada que se pudesse fazer registro. A proposta que atiro sobre este projeto de residência é dar forma substancial a este primeiro material coletado dos dois contatos que tive tanto em Cuatitlán Izcalli e Belém, numa possibilidade de buscar relações entre a permissividade de um e a ilegalidade do outro, proporcionando um estudo sobre a existência da Galiformidade, e neste cruzamento geográfico de subjetividades São Paulo, como grande capital brasileira, proporcionará uma busca destas práticas clandestinas existentes na cidade e no interior do estado.

Objetivamente este processo de residência tornaria o desenvolvimento deste trabalho viável seguindo as atividades de observação das rinhas de galo e minha inserção social e participativa dentro das mesmas: fazendo coleta de dados, relatos, fotografias, videos e uma aplicação diária de tais exercícios através do desenho e da pintura. É importante destacar que não desejo limitar esta atividade apenas numa linguagem artística, a idéia é tornar possível a existência de um gabinete de estudos aberto a possibilidades plurais de difusão, ou seja, não existirá um produto final específico a ser executado, mas um conjunto de experiências, onde a performance (em seu sentindo expandido de performatividade), o video, a fotografia, a pintura, o desenho, objetos, esculturas, textos e etc. constroem juntos tal resultado.

Como trabalho em processo, RIÑA propõe a construção de um ringue de “briga de galo”, na construção de uma réplica similar das rinhas no México. Como espaço de ativação, ele servirá de base para a aplicação das ações recorrentes no decorrer da residência, bem como trocas com o público, debates com estudantes de artes e outras áreas de conhecimento, numa idéia constante entre criação e embate, onde diariamente o artista alimenta esta arena com proposições interligadas a clandestinidade das rinhas no Brasil, buscando sempre um diálogo que parte de violência como motricidade à criação. *importante ressaltar que o artista não promoverá nenhum tipo de violência animal, respeitando as leis vigentes de direito dos animais na constituição, as rinhas clandestinas a serem descobertas no processo servirão como produção e material subjetivo para a pesquisa e trabalho da residência. O artista não tem como interesse promover prática alguma de violência animal ou ilegalidade em sua pesquisa. O anonimato dos locais de pesquisa de campo serão preservados, bem como meus limites éticos como artista e ser humano.

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