
Quem somos
A Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, dirigida por Mãe Lia, tem apoiado a comunidade de Teixeira de Freitas - BA, desde sua fundação, em 1999. Consoante com a diversidade de liturgias das diferentes casas de umbanda, esse terreiro tem características singulares nas suas ritualísticas e filosofias, e identifica-se como pertencente à corrente denominada “umbanda pés no chão” ou “umbanda popular”.
Em sua atual sede, inaugurada há oito anos, trabalha uma comunidade de cerca de 40 médiuns. As giras públicas ocorrem, cerca de três vezes por mês, para assistência espiritual da comunidade externa, com atendimentos gratuitos. Oferece, também, apoio material, por meio de práticas regulares de doações de alimentos e roupas a pessoas necessitadas. O terreiro não recebe financiamento público ou de instituições privadas, sendo mantido com recursos próprios dos médiuns ou de doações esporádicas.
A Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge também se destaca por sua relevância cultural, expressando-se, por exemplo, nas festas populares, abertas à comunidade: Feijoada de São Jorge e Caruru de Cosme e Damião, realizadas anualmente, com participação de centenas de pessoas. Estabelece parcerias e colaborações com escolas de educação básica para o ensino das relações étnico-raciais e da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena, e com universidades públicas, como a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) nas áreas de ensino, pesquisa e extensão. Além disso, foi retratada em trabalhos artísticos:
Pés no Chão (documentário): https://www.youtube.com/watch?v=ZJ65My7e6NA
Exposição fotográfica Canzuá: realizada junto ao Coletivo Motirô, na cidade de Teixeira de Freitas: https://www.instagram.com/reel/CuhSF_3OgE9/?igsh=MjY1YTA5MzQ4Nm15.
As raízes
A Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge tem 26 anos de atuação em Teixeira de Freitas, mas suas raízes remetem a trabalhos espirituais que começaram muito antes, na zona rural de Jucuruçu - BA, em terras que, hoje, pertencem ao Assentamento Edmundo Gusmão, do Movimento Sem Terra. Mãe Lia conta que suas avós, materna e paterna, são indígenas, e um de seus avôs é negro. A família paterna chegou a essas terras a pé, devido à seca, vinda do Sertão, próximo ao Rio São Francisco, no início do século XX.
A mãe de Mãe Lia, Dona Avelina, veio do norte de Minas Gerais, mais precisamente do Vale do Jequitinhonha, casada aos 13 anos de idade, e teve dez filhos. Ela nunca teve contato com terreiros ou casas de umbanda, e, na década de 1950, já trabalhava com entidades como Caboclo Sultão das Matas, Cabocla Jurema e São Jorge, que se manifestaram espontaneamente, naquelas searas de Jucuruçu, onde a Mata Atlântica predominava. Os guias dela ajudavam familiares, amigos e vizinhos em questões de saúde e de outras demandas. Sabiam usar ervas e outros elementos naturais como remédio, em um lugar e tempo sem médicos. Também indicavam onde havia alimentos na mata, em períodos de escassez. Foi assim que a família de Mãe Lia, e tantas outras pessoas que moravam ali, conseguiram resistir, a despeito da pobreza e das opressões.
Quando adulta, morando em Teixeira de Freitas, entre 1996 e 1997, Mãe Lia buscou um terreiro de umbanda, devido a uma doença que os remédios receitados por médicos não resolviam. Quando começou a frequentar as giras e desenvolver a mediunidade, curou-se. Apenas dois anos depois, os guias espirituais a orientaram sobre sua missão. Com o suporte do terreiro que frequentava, tornou-se Mãe-de-santo, e iniciou os trabalhos em sua casa, em 1999, com auxílio de seu filho, então, adolescente, e que, hoje, é o Pai Pequeno (Pai Clayton). Em 2004, também por orientação espiritual, ela “abriu a corrente”, ou seja, passou a receber filhas e filhos-de-santo.
A casa
Em 2017, foi preciso encontrar um local, separando os trabalhos espirituais do lar. Mãe Lia e Pai Clayton alugaram o imóvel localizado no bairro Santa Rosa de Lima, com cerca de 200 metros quadrados, e fizeram os primeiros fundamentos para receber o terreiro. Era uma casa bastante antiga, que, aos poucos, foi reformada e modificada para atender às necessidades ritualísticas e comportar o número, cada vez maior, de pessoas que chegam pedindo auxílio.
A localização em área central de Teixeira de Freitas, além de facilitar que as pessoas que frequentam a assistência consigam chegar, desafia a concepção de que terreiros precisam permanecer nas periferias. Na umbanda, a espiritualidade e a vida material são uma só coisa, não se dissociam. Havendo pessoas em sofrimento e com demandas espirituais nas cidades, o terreiro também precisa estar lá, assim como estão as sedes das demais religiões, hegemonicamente, cristãs.
Em 2023, os proprietários colocaram o imóvel à venda. Assim, para poder manter-se nesse espaço, as(os) médiuns fizeram um esforço e, com recursos próprios, conseguiram levantar parte do valor necessário, iniciando o contrato de compra e venda. Entretanto, ainda são necessários mais recursos para assegurar o pagamento integral do imóvel. Além disso, é preciso fazer reparos e manutenções para assegurar o bom funcionamento do espaço.
Resistência
No momento, estamos nos esforçando para permanecermos na atual sede, em movimento de resistência para que os saberes ancestrais tenham espaço neste mundo, cada vez mais desencantado. Trata-se do enfrentamento do racismo religioso que vem junto com a ganância, a exploração da terra e das pessoas, constituindo a colonização. Precisamos abrir passagem para que pessoas humildes, descendentes de povos historicamente oprimidos, também possam falar. Encarnadas ou desencarnadas, mas, sem dúvida, sempre vivas, que possam continuar trazendo sua sabedoria e luz na grande encruzilhada, que é Teixeira de Freitas.
Se você sentir que quer fazer parte desta história, pode contribuir com a Vaquinha (valores a partir de 25 reais).
Toda ajuda é bem-vinda.