
Agro é pop
Apresentação
O desenvolvimento da agricultura pelas mulheres há milhares de anos antes de Cristo foi um marco no desenvolvimento da vida humana, pois esse foi um dos elementos que possibilitou a fixação dos povos nos territórios, constituindo comunidades humanas que se transformaram em nossas cidades modernas. Hoje divididas em zona urbana e zona rural.
O Brasil, país ainda bem jovem, com pouco mais de 500 anos, foi predestinado pela geopolítica internacional a ser o celeiro do mundo. Produzindo alimento em larga escala, baixo custo e pouco valor agregado. Tudo ditado pela cartilha capitalista, que no campo é chamado de agronegócio.
É importante dizer que algumas pessoas falarão que agronegócio é na real todo e qualquer negócio realizado na agricultura ou agropecuária, no entanto essa afirmação está totalmente equivocada. O conceito agronegócio tem muito mais uma significação política do que meramente etimológica ou semântica, no que diz respeito aos verbetes de dicionário comuns. Quem defende essa ideia, das duas uma, ou é uma pessoa muito ingênua (o que é pouco provável) ou é uma pessoa com segundas inteções que não representam os anseios do grosso da população mundial. Vulgo pessoas que estão envolvidas com as grandes multinacionais e grandes empresários da agricultura que visam tão somente o lucro, onde a produção de alimentos é questão secundária.
Sendo o Brasil o celeiro do mundo, a agricultura tem um peso gigantesco em nosso PIB. Chegando a contribuir com 23,5% do Produto em 2017, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Isso quer dizer por exemplo que esse setor tem grande poder em nossa sociedade, logo temos uma bancada no congresso conhecida como bancada ruralista. Segundo a Frente Parlamentar da Agropecuária (nome oficial) 120 deputados federais e 13 senadores fazem parte de seu grupo, o que representa um quarto do congresso. Sendo a maior bancada da casa.
Isso implica que todas as leis, sejam novas ou alterações ou mesmo vetos que queiram eles conseguem impor, pois eles podem barganhar os seus votos e emendas parlamentares junto aos outros membros do congresso e ao executivo. Para falar o mínimo.
Uma das questões principais na qual essa bancada atua é na liberação de agrotóxicos em nosso país. Gerando situações absurdas, como liberação de produtos que foram proibidos em outros países ditos de primeiro mundo. Aqui, produtos banidos da União Europeia, porquê comprovadamente geram doenças terríveis, inclusive levando a óbito em muitos casos, são liberados, tem seus impostos zerados e ainda não sofrem a menor fiscalização de uso, até mesmo os receituários agronômicos que são obrigatórios são burlados para liberar totalmente a venda sem se preocupar para que finalidade.
E qual a real intenção dessa galera? Maximização dos lucros. Pouco importa se rios e outros corpos hídricos serão contaminados, pouco importa se aumentarão os índices de câncer e outras doenças, pouco importa se aumentarão os índices de suicídio de trabalhadores rurais, pouco importam se os alimentos perderam qualidade nutricional, pouco importa qualquer malefício que acompanhe essa maximização de lucros, pois só ela importa.
Para nós fica difícil competir, pois nem a informação nos chega. Eles ainda gritam aos quatro ventos que sem os agrotóxicos não conseguiríamos produzir, negando e escondendo inúmeras experiências exitosas de produção de alimento saudável. Como a produção em larga escala de arroz orgânico realizada pelo MST no Sul do país ou as inúmeras agroflorestas que vem se espalhando pelo Nordeste ou as milhares de feiras agroecológicas que todo santo dia pipocam por esse Brasil ofertando produtos de alta qualidade e a preço acessível.
A serviço de quem estão esses deputados e senadores? Qual a real intenção desses empresários com a agricultura? O que quer dizer uma das maiores empresas de produção de agrotóxicos do mundo ser ao mesmo tempo uma das maiores produtoras de remédios (Bayer)? Essas são algumas das questões que me acompanharam durante meus anos de formação como engenheiro agrônomo, durante minha militância na agroecologia e que agora tornam a me perturbar o sono enquanto artista. Dessa maneira surge o projeto Agro é pop que visa através da arte refletir essa questão, que permeia os vários âmbitos de minha vida e do ambiente em geral, seja orgânico ou inorgânico, seja natural ou alterado pelo humano.
A performance
Pensando sobre essas questões me veio uma imagem muito forte. De um homem vestido com um equipamento de proteção individual - EPI, aplicando um líquido transparente em frutas com o auxílio de uma seringa.
A indumentária do aplicador de agrotóxico o transforma imageticamente em um ser extra Terra ao enchê-lo de roupas, que mais parecem a de um humano visitando o espaço ou de uma pessoa moradora de uma região muito fria, como os polos.
Então decidi me apropriar dessa imagem que por si só já carrega uma fantasia, no sentido de transfiguração da realidade em uma outra que supostamente não existe nesse mundo - /des/re/territorialização. Levar essa figura até um mercado onde ela ficará retirando frutas de caixotes empilhados como os de uma venda típica de mercado público e injetando nelas um líquido transparente, de origem desconhecida para quem vê, com o auxílio de uma seringa com agulha e então oferecer a fruta modificada para as pessoas.
O local para realização dessa performance é em mercados ou feiras públicas, com a pretensão de fazer a primeira apresentação no Mercado Municipal Walter Peixoto em Crato-CE no dia 15 de outubro de 2018.
Material e serviços necessários
Produção executiva;
Registro fotográfico e audiovisual;
Assessoria de imprensa;
EPI para aplicação de agrotóxico;
Seringa com agulha (uma agulha mais grossa);
Vasilhame remetendo ao de agrotóxicos;
Água;
Caixotes de feira;
Frutas.