Vaquinha criada em: 22/03/2025
Vocês que me conhecem sabem que os livros tiveram extrema importância na minha vida: hoje, à beira dos trinta e um anos, graças aos livros que li, tenho meu sustento como pesquisador na área de filosofia (um sustento temporário, é claro). Não sou só o primeiro da minha família a ter formação nessa área, talvez seja o primeiro da minha rua, do meu bairro e provavelmente um dos poucos da minha cidade e da minha região a percorrer este caminho. Dentro da filosofia, meu horizonte de pesquisa se estende pela área de Estética e Filosofia da arte, mais especificamente a relação entre filosofia e literatura, dois territórios de difícil acesso, não só pela dificuldade delirante dos filósofos e dos poetas e ficcionistas, mas também por questões de classe, raça e gênero, certamente. Por um acaso, esbarrei nessa vida com essas duas coisas estranhas, que acabaram mudando tudo, tudo ao meu redor. Mas quantos tiveram contato ou puderam ter contato com esse ser monstruoso chamado filosofia, com esse curupira atrás da porta chamado literatura? Quem são os privilegiados que guardam para si a palavra escrita, em suas torres de marfim, em seus castelos de pedra cercado por muralhas, e que decidem as leis e as políticas públicas e interpretam os acontecimentos e os fatos e a realidade e narram as nossas histórias do jeito que lhes convém, sem ao menos ter vivido um terço do que nós, da ponte pra cá, vivemos desde 1500, então, quem são esses privilegiados? Pois isso aqui é Brasil: num país onde a escravidão durou mais que do que a suposta e falsa igualdade racial, eu, vocês sabem, pardinho, cabelo enrolado mas não crespo, sinto que sou preto demais pra ser branco e branco demais pra ser preto, habitando assim uma espécie de não-lugar, eu que cresci numa família de classe média à qual meus pais, meus avós e meus tios até então não pertenciam, numa família miscigenada dos dois lados, tanto de pai quanto de mãe, o que me faz ao mesmo tempo pertencer e não pertencer a esta classe, pertencer e não pertencer a esta raça, pertencer e não pertencer a este gênero, pois tudo o que vivi foi atravessado, para além de mim, pela história do meu país, pela história da região onde nasci, pela história da minha família - uma história de profunda violência, uma trama de esquecimento, marcada pela sensação permanente de não pertencer a lugar nenhum, sem a qual eu não existo. É preciso levar isso em conta quando falamos de nossa possível relação com os livros, com a filosofia, com a literatura. Desse ponto de vista, posso dizer que de saída trago comigo cicatrizes que não sei bem de onde vieram, e se hoje posso ter acesso a esse lugar privilegiado que é a filosofia, a literatura, a universidade, os livros, a classe média intelectualizada composta por doutores e doutoras, quer dizer que carrego comigo, para dentro desse lugar inacessível até então para os meus, não só minha família e meus amigos, também a história de um país construído por meio de catástrofes, cuja voz dos que se foram, esquecidos e injustiçados, ainda ressoa por baixo dos escombros. Ter a pele marrom e o cabelo enrolado nessa falsa europa que é Santa Catarina e ainda se meter a falar de filosofia e literatura é, antes de tudo, um gesto disruptivo, marginal, violento, porque antes mesmo de entrar no campo de batalha eu já trazia comigo cicatrizes. Porque meu pai e minha mãe não puderam ler Dostoievski numa tarde ensolarada de terça-feira. Porque minha avó não sabe quem era seu pai, nem seu avô, nem seu bisavô, e sendo negra ou parda, sem dúvidas não-branca, também era pobre, e antes dela eram pobres, e depois dela ainda são pobres, e muitos ainda carregam (seria mera coincidência?) os mesmos traços de minha avó. Como eu carrego estando aqui. Cicatrizes. Marcas de um passado esquecido. Rachaduras por onde o sol entra.
Até pouco tempo atrás apenas homens brancos de classe média acessavam a universidade, a filosofia, a literatura, o estudo de outras línguas, com seus sobrenomes europeus e seus pais bem sucedidos e importantes (meu sobrenome Schneider é uma invenção de meu avô para parecer europeu, o que significa ter crédito na praça, uma mudança que ele mesmo fez no cartório, mudando de Carlos Lopes de Liz para Carlos Schneider). Saber que não estou sozinho é importante, por isso gosto de lembrar dessas cicatrizes. Não era pra eu estar aqui. Não era para nós estarmos aqui. Mas os livros possuem para mim outra função: poderia dizer que foi através deles que aprendi a respirar melhor, a controlar o ritmo, a desacelerar o tempo. Eu adoro ler. Eu adoro escrever. Antes mesmo de ouvir falar de filosofia e literatura e universidade eu já pude ter o privilégio e a oportunidade de ler coisas que me interessavam e escrever pelo simples prazer de escrever (deixo aqui registrado que sou o maior rapper da região da AMURES). A música foi fundamental nisso tudo, mas agora não vem ao caso. É pela escrita e pela leitura que pretendo também narrar de outra forma a história que nos envolve, contra o apagamento organizado pelas elites históricas. O que quero dizer é o seguinte, em resumo: meu aniversário é dia 11/04, então decidi fazer essa vaquinha para quem quiser e puder ajudar com um valor simbólico na compra de livros, tanto para minha pesquisa acadêmica (termino o mestrado esse ano e tenho de escrever um projeto para o doutorado, mais amplo e complexo) quanto para meu projeto literário, materiais que vão me ajudar na escrita dos dois romances que estou desenvolvendo - “Vesúvio” e “Misantropikal”, títulos provisórios. Eu sei que se eu morrer hoje, amanhã outro guerreiro nasce, mas gostaria de ressaltar um último ponto: quem são os intelectuais, os escritores, poetas, filósofos e romancistas entre nós? Como eles se vestem, onde vivem, comem e dormem, qual a cor da sua pele, os traços do seu rosto, é homem ou mulher? Todos os dias estando na universidade eu lembro de que não era para eu estar aqui. Não era pra estar lendo essas coisas de filosofia alemã, esses romancistas latinoamericanos. Não era isso que se esperava de gente como eu. A cena final do roteiro: mais um fora desse território de tão difícil acesso. Mas filosofia, literatura, aqui estou. Por mim, por nós. Pelos que se foram. Pela minha mãe que ora por mim de algum lugar. Ainda que eu pertença a lugar nenhum, e a todos os lugares ao mesmo tempo.