
Olá pessoinha! Desde já agradeço seu interesse e darei um pouco de contexto antes de pedir ajuda:
"Em 2021 fui deportado da Espanha, sendo proibido de retornar para lá por dez anos, depois de ter ficado três anos e quatro meses. Nesses casos, a pessoa é deportada para o maior aeroporto internacional do país em questão. Parei em Guarulhos, São Paulo, onde eu não conhecia ninguém. Por milagre, uma moça que trabalhava no aeroporto me ajudou emprestando seu telefone, para fazer uma ligação para a única pessoa que eu conhecia que também estava em Madrid. Ela morava em Mogi das Cruzes e fui até lá pelas linhas de metrô (que eu nunca tinha andado por ser de Roraima).
Obviamente ajudei a pessoa que tinha me acolhido pagando umas contas de água e luz que estavam atrasadas. Por ser tatuador, ele não estava muito bem financeiramente. Mas mesmo assim, ele não quis mais que eu ficasse por ali e tive que voltar pra Roraima. Dois meses após o retorno, comecei a ser escravizado pelo Atacadão, onde apesar de todo meu afinco e esforço, nunca fui reconhecido. Como presente de Natal, me demitiram antes da entrega das cestas natalinas e desde então estou desempregado.
A mãe de uma amiga infelizmente faleceu, deixando a casa como herança para ela. Mas como a mãe não registrou nenhum documento com esse desejo, as duas irmãs querem parte da casa. Essa minha amiga me chamou para morar nesta casa, até que o inventário e venda sejam providenciados. Antes disso, eu morava com a minha avó e uma tia com deficiência.
A minha avó tira da aposentadoria dela para fazer caprichos de um cara que é filho do filho do irmão dela, que foi adotado pelos meus avós e tem um quarto só dele. Por N motivos, das nove tias e três tios que eu tinha, mais da metade não vai com a cara dele. Minha tia mais nova deixa de ficar na casa dela, levando os quatro filhos dela para tomar café da manhã, almoçar e ficar por lá até de noite às custas da minha avó. De três a sete pessoas diferentes aparecem por lá na hora do almoço, sem ajudar em nada com um quilo de alimento não perecível. Um dos meus tios aparece por lá (sendo que é concursado e casado) pedindo dinheiro pra gasolina.
Como você pode perceber, isso não é uma casa, é um albergue e rodoviária ao mesmo tempo. Pessoas (até que não são da família) ficam por lá para dormir quando chegam do interior, pois em Roraima tudo é distante, concentrado na capital chamada Boa Vista.
Eu ajudava naquela casa. Obviamente ajudava. Além de ser muito prestativo. Uma senhora com nove filhas e três filhos (sendo um que apareceu de brinde) e era eu que ia na farmácia, no supermercado, até ler a bula de um remédio. Mesmo tendo filhos por perto, ela pedia favores pra mim. E por ser rodoviária, vários parentes apareciam pedindo ajuda pra chamar um Uber, pra descobrir a senha perdida do Face, pra fazer uma recarga de celular ou um Pix…
Mas, um belo dia, chego por lá e a gaveta que eu usava pra guardar minhas roupas estava quase vazia, com outras coisas dentro. Em um canto do quarto, uma bolsa com tudo que estava na gaveta dentro dela. Não precisa ser um Sherlock Holmes pra perceber a expulsão, a enxotada. Minha avó não foi dona o suficiente dali pra dizer que não me queria mais ali. Mandou a filha mais nova, de quem eu já sofri abuso sexual, botar tudo em uma bolsa sem meu consentimento. Mas não fiquei surpreso. Eu meio que esperava, mas não tão desumano desse jeito. A partir de então, eu renunciei completamente essa “família”, que culpa mulheres pela falta de sucesso de seus homens, que acoberta incesto e abusos, que acha errado uma pessoa não negar a sua orientação sexual.
Roraima é muito atrasada nos atuais avanços da sociedade. É tanto que aqui eu não consigo mudar de nome sem uma ação judicial, como é possível em outros estados. A sua maioria é bolsonarista, machista e patriarcal.
Eu me nego a continuar a viver nesse estado, tendo que esbarrar com integrantes dessa “família” hipócrita, falsa e imunda. Por isso que eu peço ajuda de apenas dez centavos seus para arcar com as passagens de ônibus daqui até Rio Verde, Goiás.
Mas porquê Rio Verde, Goiás?
Em Madrid, eu me conheci. Eu finalmente aceitei o Dani que sou e liguei o foda-se pra essa “família”. Até mesmo a minha mãe acha que pra Deus é errado ser homossexual. Pra essa “família”, Deus é amor só se você for heteronormativo machista e cavalo reprodutor. Escolhi essa cidade porque lá mora meu amigo Yuri, que é o irmão que eu nunca tive. Sou eternamente grato a ele por me ajudar a ser quem eu sou. Várias coisas acontecem em Madrid para me ajudar nesse autoconhecimento, mas o Yuri foi o gatilho. E seria muito bom para mim, estar perto de alguém que ama o Dani, não o Daniel. Em novembro de 2023, quando completei 31 anos, fui diagnosticado com TAG (transtorno de ansiedade generalizada), parte pelo grupo Carrefour, que não capacita seus superiores para casos de desrespeito e preconceito por parte de clientes, e por outra parte, a pressão da “família” em ser o neto mais velho mais “estragado” da família Rodrigues.
Muitíssimo obrigado pelo seu precioso tempo lendo este relatório. Perdi a conta dos dias em que eu passei fome por ter vergonha de pedir. Eu só queria ser ajudado desta vez. Pelo menos só desta vez.