
Há dez anos, em um shopping popular de Belo Horizonte, onde a cultura chinesa predominava, encontrei Isabela, filha de um casal de imigrantes chineses, Xiyan Jia e Xhueiong Zhou. Era uma bebê frágil, rodeada pelo comércio vibrante, mas que crescia num ambiente pouco acolhedor para uma criança. Movida pela empatia e um instinto de proteção, comecei a cuidar dela, trocando fraldas, embalando-a para dormir e levando-a para tomar sol. Mal sabia eu que esses pequenos gestos marcariam o início de uma jornada de amor e devoção, que me levaria a se tornar uma mãe do coração para ela.
Com o passar do tempo, minha relação com Isabela se tornou mais forte, a ponto de seus pais confiarem a mim grande parte de sua criação. Ela foi crescendo, e minha família a amava como se sempre tivesse feito parte de nós. Reuniões escolares, tarefas, aniversários, tudo fazíamos juntos. Quando os pais de Isabela tiveram mais dois filhos, Erick e Henrique, também os acolhi com carinho. Nessa época, os avós paternos das crianças vieram da China para ajudar, seguindo a tradição de cuidar dos meninos, enquanto a menina era deixada um pouco de lado.
Porém, a vida trouxe desafios inesperados. Xhueiong adoeceu com câncer e, após sua morte, a mãe, desorganizada e desamparada, viu-se sem condições de cuidar dos filhos. Após desentendimentos com os avós paternos, que retornaram para a China, a família ficou desamparada. Fiz o possível para ajudar, alugando uma casa próxima e me tornando a presença constante na vida deles. No entanto, diante da crescente dificuldade, parecia que a única solução era enviar Xiyan Jia e as crianças de volta para a China. Essa decisão, contudo, trouxe apenas dor.
Na China, a mãe e os filhos não foram bem recebidos. Hoje, eles vivem em um vilarejo atrasado, sem acesso à educação ou oportunidades. As crianças, ao invés de estarem na escola, trabalham e são privadas da infância que merecem. Não brincam, não estudam e vivem em condições precárias. Meu coração dói todos os dias. Isabela tem dez anos, Erick oito, e Henrique seis. Penso neles constantemente, como se um pedaço de mim tivesse sido arrancado. Eles são brasileiros e merecem uma vida digna, com direitos, oportunidades e amor. Xiyan Jia também deseja voltar, mas não tem recursos. Escrevo esta carta com lágrimas nos olhos, desejando trazer minha família, meus filhos do coração, de volta. Quero dar a eles a dignidade que merecem, o carinho e a segurança que só aqui, perto de nós, poderão encontrar.