
UMA LUTA CONSTANTE
Traudi Adi Klein tem 53 anos e mora em uma casa de pau a pique, perto do bairro Santo Antônio em Lajeado. As instalações são precárias. Falta tudo. Menos dignidade. Mas ninguém mata a fome com dignidade. Nem sede, sede essa que quando bate a secura na garganta, usa o balde, já que não possui água encanada.
Eletricidade? Meia boca. Há pouco tempo, Traudi combinou com um conhecido de puxar um fio de luz até a habitação. Para isso, paga R$ 100. Dinheiro esse que pena para conseguir. Mas seu calcanhar de aquiles é mesmo a fome dos bichanos.
Traudi tem 19 animais em casa, espalhados por quarto ,cozinha e parcos ambientes. No pátio, mais outra turma de focinhos. Calcula que já juntou das ruas 300 cães e gatos. Muitos, semimortos, os quais coloca nome e ajuda no restabelecimento.
O trabalho voluntário de acudir bichos abandonados se intensificou há quatro anos. Ela diz que é como enxugar gelo. Quanto mais ajunta, mais aparece caninos desamparados. “Tem meses que as pessoas costumam abandonar mais. Como na Páscoa e fim de ano. Muitos, eu encontro mortos, dentro de sacos de lixo.”
A prefeitura ajuda com castrações. A secretaria do Meio Ambiente, com assistência. Mas é sempre ela que dá o amparo maior, na busca de ração, remédios e carinho.
A comunidade auxilia com roupas, as quais ela guarda cuidadosamente para fazer brechó a fim de reverter em dinheiro para compra de ração. Pouca gente vai ao brechó. Traudi se sente praticamente sozinha nesta luta. E a pressão só aumenta: ela precisa sair da casa em que vive.
Traudi não tem mais eira bem beira. Só os cães, que também ficarão desamparados. “Estou tentando na promotoria e na prefeitura, um local permanente, onde eu possa morar com os animais. Tenho de sair daqui o quanto antes, senão eles me tiram os bichos. E sem eles, eu morro.”
A voluntária é chamada para recolher bichos em valetas e asfalto. De bicicleta, percorre esses locais. Em uma mão, segura o cãozinho abandonado, em outra, o guidom e assim segue até seu lar precário, mas o único que lhe abriga e aos seus amigos de quatro patas.
A tarefa é custosa porque Traudi tem síndrome do pânico e dificuldade para enfrentar pessoas e a vida lá fora. Mesmo assim, ela encara o transtorno e o estigma. Os bichos vêm antes dela. Prefere alimentar a eles do que comer. Muitas vezes lhe falta comida. Mas seu brado de socorro é sempre por ração, nunca por feijão e arroz.
A luta é árdua e o caminho é penoso, mas desistir é um verbo que está fora de cogitação. Traudi é resistência num mundo líquido e de enjeitamento aos diferentes.