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Bike do João

ID da vaquinha: 205282
Bike do João
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Começou com um telefonema à tarde: "então, no central era só folga mesmo, mas... o quadro ta quebrado". E tão logo quanto eu correndo à favor do vento, escalou para uma das Quintas-feiras mais tenebrosas em décadas que consigo lembrar. Agoniado pra sair logo, a fissura escondida num ponto cego que não havia notado, eu tinha que ver pra crer. Vi. E o coração pesou. "É... é o fim de uma era", ouço, querendo não ouvir, "mas ela aguentou bem até, heim".

Ela me acompanhou por excelentes e longos 8 anos de muito suor, muitas corridas, muitos pneus furados, alguns acidentes, mas muitos sorrisos gratos no limite do cansaço. Foi tanto tempo passando grudados juntos, tanto aperto, tanta alegria, que era inevitável nutrir um carinho especial além do objeto, mas como se estivesse viva. E me aguentando, quando eu exigia demais; sendo paciente quando eu não podia dar atenção suficiente; estando disposta sempre que eu precisasse. Exceto quando era ela que precisava de ajuda, e precisou muito. Como um pet que adoece, sempre era minha máxima prioridade quando ela precisava de conserto, essa era minha forma de retribuir o bem que ela me fazia.

Nesse tempo, com a pressão que a coitada sofria, praticamente nada dela resistiu ao esforço e desgaste do tempo. Praticamente. Se fosse um pet comum, seria como se a criatura vivesse por 8 anos num ritmo olímpico sem descanso, passado por incontáveis cirurgias de remoções e implantes, se tornando quase um ciborgue e mantendo apenas seu sistema nervoso central intacto. E finalmente, até mesmo este último órgão, que resistiu bravamente muito mais do que todos os outros, também sucumbiu.

Então vem o dilema: se substituir a última parte orgânica de um ciborgue, ele enfim vira um robô completo; esse robô manteria a alma do ciborque? Ou sua alma morreria junto com sua última parte orgânica descartada? Quão insensível seria apenas descartar o ciborgue pelo mal funcionamento de uma parte (e justamente a única parte que ainda faz ele ser o que ele sempre foi)?  É realmente possível falar em "cuidado/proteção" se a única forma de evitar a "morte" da identidade fosse um tratamento no mínimo meia-boca e no máximo temporário? Assim faço o que sempre fiz de melhor: me importar demais, mesmo quando onde normalmente só se vê uma pilha nada mais do que útil de ferro, alumínio e borracha, eu vi uma companheira pra todos os momentos.

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