
Eu sou a Laura. Há dois anos, Ganesh ainda não era meu cachorro.
Nesh foi um cão policial. Cães policiais se aposentam aos 8 anos, e então são doados ao próprio policial que o treinou ou a outra pessoa que o queira e se responsabilize. Ganesh tinha 11 anos quando o conheci, e ainda estava para adoção. O empecilho era seu temperamento: não permitia aproximação.
Nesh trabalhou na polícia como um cão - uma máquina - de guarda e proteção. Esteve em muitas rebeliões presidiárias, manifestações e "forfait" de torcidas. Ao final da carreira, como todo bom soldado, me parecia que tinha algo de TEPT.
Fato é, assim que o vi, o senti. Apesar de eu sempre ter tido muitos animais e abraçado essa causa, eu sabia que o Nesh era o meu cachorro. Especial. Único. Insubstituível.
Pedi a adoção. Fui por dias ao canil visitá-lo: passeava, rasqueava, acariciava e devolvia; voltava para casa em prantos por não liberarem o bendito termo. Dia vai, dia vem, Nesh me permitiu entrar no canil dele, sentar na cama dele, e me encheu de lambidas. Foi esse o dia de assinatura da alforria! Não me compreendam mal: ele era bem tratado, comia bem, passeava - mas precisava de uma família.
Pois bem, meu coração em festa. Meu cachorro em casa, com seus irmãos, sua cama, sua família e seus novos aprendizados: "não pode xixi na cozinha", "não pode pular na mesa", "não pode morder o sofá". Foram semanas de adaptação e alguns acidentes: mordeu meu marido (correção: morde, no presente), mordeu meu filho, mordeu uma das minhas gatas. Nada tão grave porque ele não tem mais uma mordedura perfeita - os dentes são extremamente gastos, porque mordia de tudo no canil, inclusive o portão de metal; provavelmente uma tentativa de desestresse.
Esse começo teve ainda o lado mais sofrido. Ganesh dormia de olhos abertos, patrulhava pela casa durante a madrugada, estava sempre em alerta. No passeio, mordia a grama, a cerca, o que estivesse na sua frente, quando algo o deixava nervoso. Isso me assustava, mas eu insistia na evolução dele.
Meses depois, vimos a transformação: Ganesh dorme, olhos fechados, a noite toda; passeia com seus irmãos e não se incomoda com outros cachorros; tolera pessoas.
Porém, os sentimentos sofridos cobram a saúde. Como a grande maioria dos soldados aposentados, Nesh desenvolveu um câncer. Baço. 12 centímetros. A doença se desenvolveu em velocidade recorde. As opções naquele momento não eram boas, e a decisão tinha de ser tomada rapidamente: cirurgia com grandes chances de não retorno da anestesia ou eutanásia. Eu arrisquei a cirurgia.
Foi um dia de muita paciência e fé. Após horas, me informaram que a retirada do órgão fora um sucesso, mas que houveram sequelas neurológicas, as quais poderiam não ser reversíveis.
Nesh voltou para a casa antes do tempo necessário de UTI porque não conseguiam manipulá-lo (eu tive que tirar seu acesso intravenoso, inclusive). Ele não andava e ninguém podia colocar a mão nele. Eu sou bem pequena, tive alguns problemas de crescimento, e ele tem quase meu peso. A partir daquele dia eu criei forças e o carreguei na internação. Eu o carreguei para casa. E continuei carregando, por seis dias, para o Sol, para as suas necessidades (não queria fazer na fralda), para um passeio, para as consultas de retorno. Não consigo explicar a vocês nossa relação, porque nem eu a compreendo: é algo sobrenatural, e isso me basta.
Foi no sexto dia de cirurgia que Ganesh andou. Eu vibrava! Liguei para meus pais, filmei, avisei minha tia, gritava de alegria! Era nossa recuperação acontecendo! Por alguns dias ele precisou do peitoral de apoio (em razão do desequilíbrio), mas com as novas medicações e muita fisioterapia caseira, hoje anda sem auxílio.
Contudo, recebemos o laudo do histopatológico, e o câncer é maligno. Nesh precisará de 6 sessões de quimioterapia e alguns medicamentos de apoio. A verdade é que eu já me endividei no momento da cirurgia e agora preciso de ajuda.
Essa vaquinha é para isso. Eu quero dar ao Ganesh o fim de vida que todo policial aposentado merece: tranquilo, sem dor.
E, caso você não possa contribuir, já valeu a pena me permitir te contar nossa história, minha e do Nesh. O amor existe. O seu animal de alma existe. E com esse amor você é capaz de superar tudo. Eu te desejo esse encontro. Eu desejo que você possa sentir esse amor e carinho, porque é maravilhoso.
Fica com Deus.