
Exilado político, sobrinho de um campeão da Copa de 1950 e fundador da tradicional Barraca do Uruguai, Milton Gonzalez viu o tratamento após uma amputação consumir a reserva financeira que manteria o negócio funcionando
Quem frequenta o Posto 9, em Ipanema, provavelmente já cruzou com ele.
Sempre de sorriso no rosto, pronto para uma conversa e cercado por clientes que se tornaram amigos, Milton Gonzalez faz parte da paisagem da praia há mais de quatro décadas. Para muitos cariocas, a Barraca do Uruguai não é apenas um ponto de encontro: é uma tradição.
Mas antes de se tornar um dos personagens mais queridos de Ipanema, Milton precisou lutar pela própria liberdade.
Ex-líder sindical no Uruguai, ele foi preso e perseguido durante a ditadura militar instalada no país na década de 1970. Diante da repressão, precisou fugir clandestinamente, deixando para trás a esposa, os filhos e a própria história.
Sem saber exatamente por quê, acabou desembarcando no Rio de Janeiro em 1981.
“Vim sozinho, de forma clandestina e tive de viver nas sombras durante mais de um ano”, contou em entrevista à ESPN.
Meses depois, conseguiu regularizar sua situação e trouxe a família para o Brasil.
Sem profissão e precisando recomeçar a vida, Milton enxergou uma oportunidade nas areias de Ipanema.
Ao lado da esposa, Glória, decidiu levar um pedaço da cultura uruguaia para a praia carioca. Assim nasceu a Barraca do Uruguai, famosa pelos tradicionais sanduíches de linguiça, carne e frango preparados na churrasqueira.
A escolha por Ipanema também teve um toque de romantismo.
Primeiro, o casal queria conhecer o bairro eternizado pela música “Garota de Ipanema”. Depois, percebeu que a faixa de areia menor aproximava vendedores e clientes. Mas foi o pôr do sol, encerrado diariamente por aplausos dos frequentadores, que convenceu a família de que aquele seria seu novo lar.
Ao longo dos anos, a barraca virou ponto de encontro de artistas, jornalistas, estudantes, políticos, surfistas e turistas.
A história de Milton ultrapassou a areia da praia e virou tema de um documentário dirigido pelo cineasta Federico Bardini e também do livro Milton Gonzalez, o uruguaio de Ipanema, escrito pelo jornalista Bruno Azevedo.
Outro detalhe curioso ajuda a entender suas raízes.
Milton é sobrinho de Matías González, zagueiro titular da seleção uruguaia campeã da Copa do Mundo de 1950, protagonista do histórico Maracanazo.

Agora, aos 72 anos, Milton Gonzalez enfrenta uma batalha diferente.
Após machucar o pé na praia, o ferimento foi agravado por complicações da diabetes e acabou levando à amputação do membro.
Além do impacto emocional, o tratamento exigiu uma série de despesas médicas que consumiram praticamente toda a reserva financeira da família.
O dinheiro estava separado para substituir o caminhão utilizado diariamente no transporte de toda a estrutura da Barraca do Uruguai.
Sem o veículo, o funcionamento do negócio, que sustenta toda a família há mais de 40 anos, passa a correr risco.
Para evitar que a história construída por Milton seja interrompida, familiares, amigos e clientes criaram uma campanha de arrecadação na plataforma Vakinha.
A meta é arrecadar R$ 50 mil para a compra de um caminhão seminovo, essencial para transportar equipamentos, alimentos e toda a estrutura utilizada diariamente na praia.
Na descrição da campanha, a família resume o momento delicado vivido pelo patriarca.
“Nosso caminhão está em fase final de vida útil. Já tínhamos a reserva financeira para comprar outro, mas o tratamento de saúde do Milton consumiu esse recurso. Queremos garantir que o trabalho da Barraca do Uruguai continue.”
Mais do que ajudar um comerciante, a campanha busca preservar uma história que atravessou fronteiras, sobreviveu à ditadura, recomeçou do outro lado do continente e, há mais de quatro décadas, faz parte da memória afetiva de gerações de cariocas e turistas que passaram pelo Posto 9.