PUBLICAÇÃO DO LIVRO FATOS ISOLADOS DE UMA VIDA INVENTADA

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TRECHO RETIRADO DO LIVRO FIVI (Fatos Isolados de uma Vida Inventada, D'ANGELO,Gabriela, 2017, p.122 - 124):(...)"Silvia tinha um metro e cinquenta e cinco (segundo ela), rosto bem construído, boca macia e singular, tão singular que de todas as mudanças que já fizera ela e o tempo no seu próprio corpo, só era reconhecível pela maneira única de lidar com os lábios nas poses para o polaróide: O piercing enaltecia a parte superior, ao passo de que a parte inferior se abria levemente e inclinava-se, como Brigitte Bardot. Os olhos castanhos como nunca se viu por essas terras, ombros pequenos e quadrados, pose complexa, porém relaxada. Sonhava alto, amava gatos e indie soul bem calmo, pra fazer sua (muito bem feita) arte com as mãos. Seja seus artesanatos absurdamente promissores, ou os poemas que escrevia, nos guardanapos, quando estava com a consciência um pouco elevada. Afinal, não temos de ter dias bons sempre, não é?

Tomou seu leite, comeu seus pães e saiu do restaurante disposta a encontrar o rapaz que havia feito seu retrato na tarde passada, nem que precisasse esperar a boa vontade do mesmo, se porventura fosse preguiçoso e acordasse tarde. E após andar algumas quadras, pegou o metrô. Saiu na praça principal e foi até o prédio do banco onde esperou por quase hora no dia de ontem. Chegou, escorou-se na parede e lá ficou, na espera de seu artista misterioso que tinha os motivos para dar-lhe como inspiração, além das expressões da menina cravadas num quadro que carregava embaixo do braço."

Estupefato, Osvaldo sorria de lado quando bateu-lhe uma tontura característica. Fechou os olhos e o livro, massageou as têmporas com uma força exagerada nas pontas dos dedos. Percebeu que não havia comido nada desde sua pequena xícara de café e seu amassado e velho pão francês. Desde que decidiu que teria objetivos, o rapaz tem se tornado um verdadeiro “mão fechada”, inclusive com ele mesmo. Pagava o aluguel e as contas, todavia ainda assim estava longe de ter seu sonho palpável. Não fazia idéia de quanto precisava para sustentar aquela vila, adquirir as propriedades que estavam em nome de Ademar, e perguntar seria jogar as cartas na mesa. Porém eram casas relativamente grandes e levando em consideração o orgulho do dono das residências, não seria fácil convencê-lo pelo cunho monetário, e o desafio, além da poupança, era esse. Não usar outro método.

Porra, que fome do cão.

Levantou-se da mesa de madeira redonda e envernizada, pegou o livro de capa aveludada e azul e foi até o caixa. Era uma aquisição que merecia ser efetuada. O garoto agora queria saber o que se passaria com Silvia e com o exímio pintor urbano. 

Comprou pães de queijo e um refrigerante de guaraná na padaria do lado da loja de livros,  sentando-se na calçada em frente, de modo a ficar encostado, na sombra, afim de estar confortável, ver e não ser notado facilmente.  

Com uma mão ia servindo-se dos pães e nos intervalos bebendo o liquido, enquanto a outra dispunha o livro na página em que se interrompeu a leitura.

Pregou os olhos nas linhas outra vez.

"Silvia derretia-se de desânimo encostada na parede. Deveria ter dormido mais, descansado antes de sua aventura.  Já eram quase onze horas e o rapaz não aparecia.

-Certo, hora do café.

Descendo a rua do banco entrou na conveniência de um posto de gasolina e lá pediu um capuccino e dois filões com manteiga na chapa. Pensou na possibilidade de questionar o vendedor sobre o pintor, duvidou que ele soubesse, mas todo caso já estava ali, não custava saber do paradeiro do indivíduo misterioso.

-Deixa eu te perguntar, o senhor por acaso saberia que horas o rapaz que faz desenhos aqui em frente do banco, na praça, costuma chegar?

-Olha, eu não faço idéia. Se ele fica na frente do banco, seria mais lógico perguntar por lá, não?

Sentindo-se ameaçada pela instabilidade do vendedor arrogante, fechou a expressão e quase se esqueceu de pagar, deixando a refeição pelas metades.

Voltou-se e chegando novamente a área do ocorrido, repetiu a pergunta a uma atendente do banco, que declarou em tom de “infelizmente isso não vai acontecer tão cedo”:

-Ele não fica aqui todos os dias, meu anjo. Cê tá falando do rapaz surdinho que fica aqui na frente vendendo quadros?

-“Surdinho”?

-Sim, pelo menos é o que dizem, que ele não pode escutar, logo, também não fala. Mas sinceramente para mim parece que ele tem mais alguma coisa. Está sempre olhando para todos com medo, encolhido atrás da tela, parece de fato um cachorrinho de rua.

Em sua cabeça Silvia relacionava muito bem uma coisa com outra, finalmente as coisas começavam a fazer sentido. Ele não ia atrás das pessoas por não poder dizer a elas o que sentia. Mas ainda assim poderia simplesmente correr e entregar, e, se a questão fosse o preço,podia escrever no canto de lápis e tentar vender da mesma maneira. Pensando, indagava-se:

“Ele pode já ter dinheiro, fazer as coisas por prazer. Existem várias pessoas que vivem nas ruas por pura loucura mas vem de famílias que são abastadas. Ou então quem sabe seja a timidez, ou propriamente a loucura que não o deixa ir atrás das pessoas.Mas então aonde vão parar todas essas obras?”

-Você sabe se ele vende os quadros?

-Eu já vi ele vendendo sim. Acho que se sustenta dessa maneira, mas só quando alguém para pra ver.

-Certo. Ele vem quando?

-Normalmente as terças e quintas, acho que só esses dois dias.

-E você sabe pra onde ele vai nos outros dias?

-Não faço idéia.

-Esperar pela próxima semana pode significar nunca mais ver meu quadro.

-Seu quadro?

-Obrigada, moça.

Teria de encontrar o garoto por si mesma, e a qualquer custo, se quisesse saciar sua vontade crescente de ver seu próprio 'eu' projetado na tela a óleo por outra perspectiva, e os grandes motivos que fizeram o rapaz eternar esse momento, não outro, naquele dia, naquela hora.

E Silvia seguia firme na busca pela fundamentação do acaso."

O garoto interrompeu sua leitura. Olhou pro céu, a fim de alongar seu pescoço que já doía. O sol ofuscava-lhe a visão. Respirou fundo e abriu os olhos ainda observando as nuvens. Foi quando viu, em meio a essas nuvens, um objeto caindo em alta velocidade, quase cortando o vento com suas rotações várias por segundo. O elemento estava exatamente sobre sua cabeça e Osvaldo fazia um esforço descomunal para observar a trajetória percorrida, que deixava traços brancos no céu, tamanha era sua vontade de se prender ao chão. Enquanto a coisa se preocupava em cair, o rapaz ocupava-se em tentar distingui-la, sem perceber que estava na linha reta do alvo, pronto para ser o destino mais plausível para esse fenômeno. De longe, parecia um liquidificador, mas não fazia sentido. Os raios de sol transformavam o elemento em praticamente todo tipo de coisa, menos sua forma original, qualquer ela que fosse. 

Agora, a média distância era possível identificar melhor. Não era mais algo imprevisível, e também não era um meteorito. Assim que chegou a uma conclusão, Osvaldo estatelou os olhos. Tava mais pra:

UMA BOMBA!

Solidificou-se. Como poderia um projétil munido cair do céu em uma tarde ensolarada sem maiores explicações? Enquanto isso a bomba rasgava o céu.

Não havia guerra, não havia conflito nacional! Enquanto isso a bomba rasgava o céu.

O coração pulsava, a coluna rangia em ré bemol! Enquanto isso a bomba rasgava o céu.

A BOMBA RASGA OS CÉUS!

Sintetizou suas forças e se jogou pro lado direito com todo o seu peso e impulso, ao mesmo tempo que a pomba morta se repartia ainda mais, esmigalhando e jogando seus restos póstumos por toda a calçada e pela parte traseira da camisa do rapaz, acabando com o lanche e evidentemente com a leitura focada de Osvaldo.

No final, não era uma bomba,era uma pomba. Não foi erro de grafia, foi miopia mesmo.

O rapaz ainda ficou grudado no chão até procurar abrir os olhos e ver o que se passava, verificar sua vitalidade completa e perceber o estado que se encontrava, todo sujo de vísceras de ave. 

-Antes fosse sujo de batom. 

(...)

TRECHO RETIRADO DO LIVRO FIVI (Fatos Isolados de uma Vida Inventada, D'ANGELO,Gabriela, 2017, p.122 - 124).

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