GOTA D´ ÁGUA

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GOTA D ́ ÁGUA – A criação de dentro pra fora.

O TEXTO

A peça Gota d água foi escrita em 1975 pelos autores Chico Buarque e Paulo Pontes. Trata-se de uma adaptação do clássico Medéia de Eurípides, transposta para um conjunto habitacional em uma favela da zona norte do Rio de Janeiro. Adaptando o mito, do ponto de vista grego para uma realidade brasileira, nasce assim um Jasão sambista, malandro, um coro formado por vizinhas lavadeiras e uma Medéia com poder alegórico de mostrar tanto a situação “frágil” da mulher numa sociedade patriarcal como representar também uma parcela menos favorecida da nossa sociedade. A ela chamaremos de Joana.

Joana e seus dois filhos estão prestes a serem despejados de sua casa, após o abandono pelo amante Jasão, que depois da fama irá se casar com a filha do grande empresário Creonte. No mito a feiticeira Medéia usa de seus conhecimentos de manipulação de magia para conseguir a vingança contra seus inimigos. No morro da vila do meio dia, a umbanda, a macumba toma força como o elemento mágico da protagonista. O ato heróico feito por Jasão, nessa adaptação, é justamente ter composto o samba intitulado “Gota d ́água”, que cai nas graças do povo e eleva seu autor a camada mais privilegiada da sociedade. Jasão torna-se celebridade, e precisa driblar as dificuldades de transitar entre os dois núcleos da peça, os exploradores e os explorados. Enquanto isso Joana tece sua vingança, que acabará estampando as capas dos jornais sensacionalistas de todo o país.

O Texto de Gota d ́água deixa claramente exposta uma reflexão dos autores em torno da situação do pais na época em que foi escrito, e que pode tranquilamente se estender para os dias de hoje. Refletindo sobre a experiência de um capitalismo radical, violentamente predatório e seletivo, que coloca em choque dois perfis antagonistas de sociedade, que se confrontam desde os primórdios do pais; a elite colonizadora e a classe popular abafada, nascida de uma ala subalterna.

A peça surge em um período cultural efervescente de grande importância na história do país, momento que coloca o povo como protagonista de seus enredos, indo contra a lógica das décadas antecedentes onde havia ocorrido certo “desaparecimento do povo” na cultura nacional. Dessa época vê se surgir movimentos importantes como o Cinema Novo, a melhor musica popular brasileira e grupos de teatro de extrema importância como o Arena e o Oficina.

O PROCESSO

A primeira leitura coletiva da peça Gota d ́Água aconteceu no mês de outubro de 2014, na sala da minha casa na rua Paris. A idéia da leitura surgiu espontaneamente, pois a casa em que moro é também local de ensaio de uma banda de samba de raiz. Um dia lendo sozinho a peça, percebi a ligação que poderia ter entre a casa e o enredo, que é preenchido o tempo todo com musica.

Em São Paulo é cada vez mais difícil encontrar uma casa antiga para se morar,

a casa

na Rua Paris, ao lado do metrô Vila Madalena, é uma das últimas que restam da leva decasas geminadas - a primeira delas já está sendo demolida para a construção de mais um

prédio.

Justamente por isso, o local se tornou um teatro em potencial para nós.

Foi a partir desse cenário de especulação imobiliária que surgiu a idéia d

e encenar o primeiro ato de Gota D’Água, que tem como pano de fundo essa questão social,

representadapela Vila do Meio-Dia. A idéia de montar uma peça em nossa casa, atraiu amigos atores, estudantes de teatro, não atores, músicos e, diante de um processo orgânico, foram assumindo seus papéis. Assim, em pouco tempo, a partir de leituras descontraídas da peça, formou-se um grupo de pessoas interessadas no projeto. Ao mesmo tempo, desde o princípio havia o desejo de externalizar as questões abordadas na peça –

.

De acordo com a heterogeneidade do grupo, onde poucos são atores com uma técnica já desenvolvida, era preciso criar uma maneira de colocar todos os integrantes no mesmo patamar criativo. Por isso foi importante a evocação da essência mais ancestral do teatro, a catarse e a ritualização. Aproveitando o enredo da peça, que tem fortes traços de rituais de umbanda, os ensaios da peça se tornaram verdadeiros rituais, onde a força da música guiava a construção das cenas e criação de atmosferas.

Para a criação individual dos personagens optei por métodos mais lúdicos de construção. Um estudo sobre os arquétipos foi iniciado, onde cada um dos atores buscava referência de seus personagens em animais, mitos e cartas de tarot.

O método conhecido como “étude”, difundido por Constantin Stanislavski em sua última fase de pesquisa, também serviu para o elenco descobrir formas de interpretar e improvisar situações a partir de idéias propostas sobre o texto e as entrelinhas de seus personagens.

A MONTAGEM

A música, o samba, é a alma de Gota d água, ela se tornou a grande protagonista, responsável por aproximar a platéia dos atores e conduzir a trama.

A peça toda é escrita em versos, intensificando os diálogos que poderiam ser realistas. Por que a poesia exprime melhor a densidade de sentimentos que move as personagens.

A peça nasceu de dentro da casa.

Todos os ensaios foram realizados dentro dela, o que acabou sendo uma espécie de ocupação artística. Pesquisamos e desvendamos os espaços físicos, moldamos nosso palco a partir das necessidades de cada cena.

São 16 atores em cena, mais uma pequena equipe formada para desempenhar os trabalhos de cenografia, figurino, produção, iluminação e direção musical. Ao todo éramos quase o numero sugerido de público por apresentação, 20 pessoas.

Foram realizadas 10 apresentações em nossa casa, todas com público lotado e uma lista de espera considerável.

apropriação da cultura popular pelos grandes produtores culturais, especulação

imobiliária, luta social, meritocracia, religião, opressão da mulher e a crise hídrica que

afeta o estado de São Paulo

Com a repercussão das primeiras apresentações de Gota d ́água, fomos convidados para uma temporada no Rio de Janeiro. Com a responsabilidade de encenar a peça em uma casa da zona norte da cidade, cenário original da história. Com isso surgiu nosso maior desafio; tínhamos uma peça pronta, e agora precisávamos ocupar outra casa, transformar um terreno completamente desconhecido em nosso palco.

Isso exigiu uma dedicação, entrega e atenção profunda de todos os artistas envolvidos. O cenário precisou ser re-significado, assim como algumas cenas e passagens que eram consideradas “acabadas” até então.

Assim nascia a verdadeira essência da nossa montagem de Gota d  ́ água, essência esta que está em ocupar espaços não convencionais para espetáculos. Levando a re- significação do mito e seus desdobramentos da atualidade, com a força de um ritual , de uma manifestação que aproxima público e elenco, se distanciando do conceito de peça e se firmando cada vez mais como um acontecimento.

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