Casamento d'Ela

ID da vaquinha: 46221
Casamento d'Ela
Rodrigo Barbosa
Rio de Janeiro / RJ
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Aqui vou chamá-la de Ela. Por conta de detalhes mais delicados, não posso dizer seu nome, nem de onde a conheço, mas é uma história forte, de luta, muito presente na minha vida e que tem me tocado muito.

Ela é uma menina jovem. Se incomoda por ter uma carinha de 18, mas deve estar chegando perto dos 30. Magrela, alegre, linda, sorrisão no rosto.

Mora longe, muito longe. Ou talvez seja eu que more longe dela. Mas é “muito chão”, ela diz. É tanto ônibus pra chegar no Rio que Ela gasta cerca de R$30 reais por dia num transporte mequetrefe e sem qualquer dignidade.

Entrei na vida d’Ela num momento complicado. Ela tem uma filha. O pai da menina já faleceu.

Ela casou de novo. Dessa vez não teve filhos. Passou um tempo com o marido novo até que ele ficou doente e morreu. Ela nem ficou sabendo o motivo. A mãe do cara fazia mistério, mas contou pra um e pra outro que o filho morreu de Aids e que então Ela deveria estar doente também, mas não sabia e não contaria a Ela.

Veio mais um namorado e Ela e o rapaz foram morar juntos.

Vaidosa, Ela se achava magrela demais. Queria engordar, perder a cara de moleca que, sei lá porque, tanto a incomoda, mas não conseguia. Reclamou com um amigo médico e perguntou se ele poderia indicar umas vitaminas. Já ciente do boato, sugeriu que Ela fizesse um exame de sangue antes, para indicar a vitamina certa. No pedido, Ela incluiu logo tudo que um exame de sangue pode mostrar e o exame para HIV entrou também. Exame feito, mundo vindo abaixo. Foi aí, através de uma amiga, que a conheci.

Ela passou por todo o impacto absurdo que é receber um exame com resultado positivo, todo aquele inconformismo que bate e teve que vencer toda a ignorância sobre o vírus. É muita coisa. E ainda tinha uma parte bem difícil, que é contar ao novo parceiro que tem HIV. “Ele vai me largar, vai contar pra minha mãe, vai me matar”, ela pensava.

Bem, com toda a sorte do mundo, o novo namorido não tinha o vírus.

Ele hoje é evangélico, está longe das drogas faz alguns meses e desde que decidiram casar, estão em abstinência sexual, vejam só.

Ela conta sobre o casamento com os olhos brilhando. Brilhando mesmo! Ontem correu pra casa, naquele caminho de muito chão, para chegar a tempo de ver o futuro marido experimentar a roupa que a Igreja vai alugar para ele. Desconfiada, não deixou ele fazer isso sozinho, até porque ele falou que queria um terno branco, com um colete roxo. Ela educadamente disse que não e o acompanhou à loja.

De surpresa, fui convidado a ser padrinho. “Mas é muito longe. O senhor vai?”. Ela me disse que queria que fosse eu porque a aceito “com esse problema”. Que vontade de chorar. Por mais que eu sempre repita “que problema?”, isso é algo que está na cabeça dela e não sai de jeito algum. Que vida é essa? De presente ela quer ganhar algo que sempre sonhou: um bolo de casamento. “Pode ser de dois andares, Seu Rodrigo?”. O que a gente diz diante de um sonho desse? A vida, me disseram, pode ser simples e os sonhos podem ter a forma de bolo de dois andares.

Dia desses ela saiu mais cedo para experimentar seu vestido de noiva. É um casamento coletivo, sei lá quantas dezenas de casais, numa quinta-feira, sem direito a ter a filha como dama-de-honra, porque em casamento coletivo é assim. Uma dama-de-honra só para todos os casais. Mas até então ela estava muito feliz com tudo que estava acontecendo. 

Aí vem os custos... e aí que eu preciso de alguma ajuda.  

Eu estava com Ela ontem mesmo, conversando sobre o casamento que está chegando e brincamos até de inventar coreografias para marcha nupcial. Mas Ela está em dúvida sobre o casamento, ou melhor, sobre a festa.

Eu já ajudei a comprar o tal bolo dos sonhos. Nem vai ter dois andares. São três. 

Mas aí que os convites são caros, e os docinhos também. O dinheiro encurtou e não vai dar pra fazer a festa. A lista de 130 convidados já existe. O espaço entre os blocos do condomínio, Eles já reservaram. Mas será que vai ter festa? Explico.

Eles todos moram juntos (Ela, Ele e os filhos de casamentos anteriores);e claro, eles não tem ajuda com os filhos. Tem só uma senhora que cuida das meninas no condomínio quando o ônibus da Prefeitura que deveria passar para levá-las na escola, não passa. Ela acorda, arruma as meninas e deixa com essa senhora antes de ir trabalhar. Saindo do trabalho pega as meninas e vai pra casa. Ela e Ele não tem tempo sozinhos. Aí, num movimento de boa vontade, os parentes disseram que se eles quiserem viajar na sexta (o casamento é na quinta) e voltar no domingo, cuidam das meninas.

Difícil decidir, né? Ela sempre sonhou em se vestir de noiva e ter sua festa de casamento. Mas quem sonha nunca sonha um sonho só. Ela também sonha, um dia na vida, um só, passar um fim de semana fora de casa. Isso. Ela nunca teve um fim de semana sem a filha e nunca, nunca, NUNCA, viajou, nem mesmo pra Maricá, Araruama ou São Pedro da Aldeia, tudo "no caminho" pra quem mora em Vista Alegre.

Só que eles venderam o carro pra ajudar a comprar os doces do casamento. E aí tudo fica mais difícil. A rodoviária é longe, a logística é um horror. Ele até pensou ver "esse negócio de alugar carro", mas a carteira de motorista venceu e ele não teve dinheiro pra renovar porque achou melhor não usar o dinheiro da venda do carro num documento que só precisa ter se tiver carro.

Aí que os amigos apareceram e deram a ideia da vakinha. Com ajuda de vocês Ela pode ter pelo menos a festa que ela tanto sonhou. São 130 convidados. Eu imaginei R$30 por convidado e vamos esticar esse dinheiro. 

Obrigado, amigos. Muito obrigado! 




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