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Construindo um sonho

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Um sonho para construir: a história que você ainda não conhece

 

Jovens que no amor superaram um passado de descaso familiar, abuso sexual e violência doméstica

 

Nos olhares há um brilho de esperança. Nos semblantes, graça. Ao primeiro olhar, sorrisos, mas, quem vê os risos, não imagina todos os motivos para chorar. A casinha de madeira já escura, denúncia as condições difíceis que passam àqueles que vivem ali. Trata-se de família de jovens humildes, que hoje, fazem da casa pobre um verdadeiro lar; e da própria vida, um roteiro de superação do passado e do próprio presente. Essa é história que você ainda não conhece sobre um casal que mobilizou as redes sociais nos últimos dias – Maria Eduarda e Bruno Martins, pais da pequena e risonha Charlotte.

Entrei na casa cuidando cada passo no assoalho fraco que ia e vinha num balançar quase quebradiço. Sentei em um sofá com todo cuidado para que as madeiras do chão não cedessem. Sentou-se em minha frente Maria Eduarda Figueiró Oliveira dos Santos, que com 19 anos, traz no íntimo lembranças dolorosas e traumáticas de uma infância ceifada pela dor. Para contar sua história, a jovem que atualmente construiu a própria família em São Luiz Gonzaga, juntou peças como em um quebra-cabeça. A imagem que se formou é triste. Abalada e constrangida pelo passado, trazia na voz engasgada e envergonhada as lembranças dolorosas:

— Eu morava em Uruguaiana, mas tive que fugir para São Luiz. Morava com minha mãe e meu pai. Foi quando eu tinha nove anos que tudo começou. Meu pai...

Maria Eduarda suspirou. Senti meu peito se apertar. Ela me olhou novo nos olhos, respirou fundo buscando folego e continuou:

— Meu pai era muito violento e batia na minha mãe. O que tivesse pela frente ele usava pra agredir ela... então quando eu tinha nove anos...

Silenciou mais uma vez. A jovem tinha a voz tremula. Não sabia como falar da tudo que sofreu. Olhou para a filinha de 10 meses do lado e segurou o choro. Voltou a falar:

— Ele, que deveria ter me amado e cuidado de mim e da minha mãe, começou a abusar sexualmente de mim. Junto com o abuso começaram as ameaças de que se eu contasse para alguém, mataria eu e ela. Ele dizia que fazia àquelas coisas comigo para não bater nela.

Com olhar marejado, Maria revia os traumas e o passado.

— Eu não sabia o que fazer. Ele fazia de tudo pra não me deixar sozinha com minha mãe. Eu não tinha como pedir ajuda. É um medo inexplicável. Aquela situação seguiu por um tempo, até que consegui ter coragem pra pedir ajuda e contar pra minha mãe.

Maria foi levada até uma delegacia onde deu depoimento. Como acontece em muitas situações similares, foi responsabilizada por parte da família pelos atos atrozes do pai. Após os trâmites legais o pai foi preso. A justiça determinou que Maria Eduarda iria para adoção e que deveria ser destituída da família. Após passagem por abrigo, acabou ficando com uma madrinha, e por fim, voltou a morar com a mãe. Os traumas, os medos, a violência psicológica sofrida e as ameaças do pai levaram Maria à um quadro depressivo.

— Sofri muito. Queria morrer. Pensava em suicídio. Comecei a tomar remédios e nada adiantava. Eu tinha medo todos os dias.

Com os fantasmas do abuso sofrido e sob ameaças do pai – que prometerá matar tanto a mãe, quanto a filha, ao sair da prisão –, veio para São Luiz Gonzaga.

— Aí minha avó morava aqui e tava muito doente. Eu e minha mãe viemos pra cuidar dela.

E numa dessas tardes em que não esperava nada da vida, Bruno Ferreira Martins estava em uma lan house, jogando em um computador. Entre um lance e outro o jogo parou de funcionar, como numa dessas coincidências que parecem coisa de Deus. Bruno é quem conta:

— Foi muita coincidência. Tem que ser coisa de Deus. O jogo parou de funcionar e aí eu olhei pra fora e ela tava passando na rua. Me encantei na hora. Sai pra fora pra ver se enxergava e conseguia falar com ela, mas não deu certo. Então voltei pra dentro e comecei a procurar nas redes sociais, mas não achei. No outro dia, foi ela que mandou um convite de amizade nas redes.

Rindo do que contava, como se nem ele acreditasse, Bruno também escondia no semblante alegre e humilde de seus 21 anos, memórias que gostaria de esquecer.

— Meu pai e minha mãe nunca quiseram saber de mim de verdade. Nunca cheguei a ficar um ano inteiro com um deles – conta o jovem.

— Meu pai preferiu outra mulher. Minha mãe preferiu outro homem e se envolveu com tráfico de drogas. Foi presa. Eu fiquei rolando no mundo, parando de casa em casa. Passei fome e cheguei pedir na rua. Mas eu sempre quis ser homem honesto. Minha mãe cumpriu a pena, mas depois de solta voltou a fazer o mesmo e foi presa de novo. Pra mim é falta de vergonha na cara.

Bruno revia sua vida até ali com tristeza. Mas foi em uma dessas tardes em que não esperava nada da vida que conheceu Maria, e os dois começaram juntos uma nova história. Estavam ali, ambos diante de mim com o amor nos braços, fruto dos cinco anos de namoro – a pequena Charlotte. Brincava desavisada e feliz nos braços do pai sem entender ainda o que os dois já viveram. Sem compreender também o sentido que dera para a vida dos seus jovens pais. Charlotte nasceu em 2019, doze dias antes da bisavó materna falecer. Maria é que relembra:

— Doze dias antes da Charlotte nascer, minha avó faleceu. Eu e o Bruno estávamos morando aqui com ela, dando os cuidados que precisava, mas a saúde foi piorando e ela não aguentou. Minha mãe, depois que a vó morreu acabou voltando para Uruguaiana para tentar arrumar emprego.

Agora, era só Maria e Bruno. A gravidez seguiu mais alguns dias e nasceu Charlotte, ressignificando a vida dos jovens – que seguiam me contando sua vida naquela tarde fria de junho. Começava a anoitecer. A luz do dia entrava cada vez menos por entre as frestas das tábuas das paredes, dando lugar ao vento que entrava em cada buraco aberto nas madeiras gastas.

— A Charlotte era um sonho meu e da Maria Eduarda – conta Bruno, que continua – mas a gente queria mais pra frente, com uma condição de vida melhor, porque eu tenho certeza que isso aqui não é vida pra minha filha.

Os dias são frios fora e dentro de casa. A menina não pode ser solta no chão para engatinhar devido os perigos do assoalho de madeira, cheio de buracos – à semelhança das paredes. Quando chove, o quadro é pior.

— Quando chove molha tudo aqui dentro. Fica frio demais. Já passamos muito frio. Mas era só eu e o Bruno. Só que agora temos a Charlotte. É difícil viver assim. É pra ela o maior risco. Quando vem temporal temos que ir pra casa de algum vizinho. E não temos como ir embora daqui, não temos pra onde ir – lamenta a jovem mãe. Bruno também vê seu orgulho ferido:

— Como homem sinto vergonha das condições que ofereço pra elas viverem. Muita gente diz que sou jovem e tenho que correr atrás. Eu corro, e corro muito. Mas as coisas são difíceis e isso entristece. Eu sinto vergonha de como vivemos, mas nunca fiz nada de errado e a gente vai conseguir melhorar de vida com dignidade. Pedir não é feio, feio é roubar.  

A casa de madeira era testemunha daquela história. A sala e a cozinha dividem o mesmo espaço, diferenciadas apenas pelos móveis. Pia de um lado. Sofá do outro. Um quarto separado, e um banheiro. Com o dinheiro do último emprego Bruno comprou tijolos, mas o dinheiro foi insuficiente para construir o sonho de novas paredes, mais seguras e confortáveis para a filinha. Bruno é assim mesmo para Maria, um herói que a tirou do fundo do poço em que fora jogada pelo pai, e que agora, lutava pelo futuro dela e da filha. Os dos jovens que pararam os estudos no terceiro ano do ensino médio por causa da gravidez, afirmam em uma só voz que tudo que fazem hoje é pela filha.

— É por ela que pedimos ajuda. Queremos uma casinha pra não passarmos frio, pra ela ficar quentinha. Pra não acordar as duas horas da manhã chorando porque tá frio ou então termos que correr com ela no tempo quando chove, porque dentro de casa não tem como ficar – diz Maria.

Os jovens que ilustraram com os rostos uma campanha nas redes sociais ganharam alimentos, roupas e alguns recursos financeiros. Tudo por intermédio de Valéria Ourique, a quem consideram um anjo amigo. Valéria deu início a campanha nas redes que mobilizou a comunidade.

— Nós só podemos agradecer a tudo que já fizeram por nós. Nem o Bruno e a Charlotte tinham o que vestir muitas vezes. Ganhamos muitas coisas. É um sentimento de gratidão que a gente nem sabe como que agradece – afirma a jovem.

No entanto, mesmo com toda ajuda, os dias ainda são frios. A casinha 1352, na Hipólito Ribeiro, continua frágil e baldia. O sonho dos dois é construir uma casa melhor, seja de material ou madeira, que ofereça segurança e que os abrigue de fato das intempéries rigorosas do tempo. Bruno continua cortando grama e arrumou um trabalho temporário, mas o dinheiro ainda é insuficiente. A esperança dos jovens e a fé na vida os fazem sorrir e crer que conseguirão realizar o sonho. Valéria criou a vaquinha on-line, onde pessoas que tiverem interesse podem contribuir com doações espontâneas. Ou entrar em contato pelo fone (55) 9 9194-4802, aceitamos todo tipo de ajuda, tijolo, cimento, etc....

Era noite quando concluí a entrevista. Antes de dar tchau ao casal que me olhava da porta, com aquele semblante humilde e alegre que jamais denunciaria os sofrimentos passados, perguntei o que queriam para o futuro de Charlotte. Maria olhou para a filha que comia uma banana nos braços do pai e disse:

— Que ela aprenda a ser grata. Que seja uma boa pessoa, que faça o bem e que saiba a importância de ajudar alguém.

Róbson Gomes – jornalista.

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